Enterrando seus mortos
Ontem, depois de dezessete dias de tensão e angústia, acompanhando o sofrimento e a tristeza da família do meu amigo, colega e irmão Jânio Aparecido de Souza, conseguimos sepultar o corpo do seu filho Rafael Bento de 14 anos, estudante, evangélico das Assembleias de Deus, vitimado e morto barbaramente pelo tráfico de drogas, ou seja, por traficantes da região de Almirante Tamandaré, cidade metropolitana de Curitiba.
Tratava-se de um adolescente, ainda uma verdadeira criança, educado, prestimoso, atencioso e constantemente conviva da Igreja que se situa em frente à sua casa. Querido por todos, ajudava no transporte das compras, na reforma do templo, na pintura de suas paredes e não raro acompanhava o Pastor em suas diligências solidárias aos irmãos da congregação religiosa, onde, aliás, fazia parte também os seus pais.
Certo dia, seis meses atrás, o pai descobriu que o filho estava à fumar maconha, notas ruins na escola e outras ocorrências desagradáveis estavam a fazer parte do cotidiano do menino, e num ato desesperado o castigaram com uma sova, o que pareceu ter dado resultado. Souberam os pais, que o primo da mesma idade, era o aliciador e inclusive estava a trabalhar como “vaporzinho” do tráfico e Rafael fazia-lhe companhia.
Tudo parecia andar bem, quando no dia 23 de novembro pretérito passado, Rafael saiu por volta das nove horas para comprar uns óculos raibam e desapareceu para nunca mais voltar. Instalou-se o desespero na família e o Jânio que gozava o final das férias do seu trabalho, pôs-se em campo usando da experiência de detetive e Agente Voluntário do Inter Bureau, para diligenciar as buscas, agora, do seu próprio filho, após ter passado vários anos ajudando na localização de crianças desaparecidas, inclusive como meu assistente na Organização.
Usando dos procedimentos habituais do Inter Bureau, providenciou o boletim de ocorrência policial junto à Delegacia de Polícia Civil de Almirante Tamandaré e a confecção dos cartazes contendo os dados e foto do menino e, da matriz foi tirado inúmeras fotocópias – já que não se conseguiu uma gráfica sequer que se prestasse a doar a impressão dos mesmos, em seguida, tudo foi espalhado por todos os pontos de ônibus, colados em postes, muros e onde mais era possível fazê-los e divulgá-los.
Junto à URBS, foi pedida autorização para a inserção nos ônibus e a ela fornecida vários cartazes, todavia, nada fez e certamente alguém jogou tudo no cesto de lixo, porque não se viu um cartaz qualquer em ônibus ou nos terminais. Aliás, ao longo dos anos em que tenho trabalhado na investigação de crianças desaparecidas, pode perceber que o povo e principalmente as autoridades, são insensíveis a esse tipo de comoção.
Com o advento dessa maciça divulgação - inclusive pela TV Record - surgiram algumas pistas e imediatamente contatou-se a Delegacia de Almirante Tamandaré, informando a um dos policiais sobre a denúncia de que o menino teria sido visto numa favela da região, mas o “servidor” público alegou que estava sem combustível para diligenciar e o certo, é que em momento algum descolaram o rabo de seus assentos para saírem a procura do adolescente, como já é sabido, nunca fazem absolutamente nada para encontrar um desaparecido.
O fato, é que, no dia cinco deste mês uma denúncia dava conta de que havia um corpo jogado em um mato próximo e então, uma funerária de “plantão”, juntamente com os funcionários do IML e uma perita, recolheram os restos daquele corpo que foi prontamente identificado pelo pai, que reconheceu seus pertences, roupas, boné e os óculos Raibam, junto ao corpo, apesar do adiantado estado de putrefação.
Recomeça a via crucis do mano Jânio num vai e vem ao IML, desta vez, fazendo-se acompanhar pela esposa para formalizarem o reconhecimento oficial, a coleta de material para o exame de DNA e o trato com a funerária, posto que, dependeria ainda do juizado para liberar o corpo para o sepultamento, sem previsão e a incerteza de como seria o despacho do juiz.
Enquanto isso, a funerária queria deixar acertados seus honorários para preparar o corpo, a urna revestida em metal, funeral e sepultamento. Essa hora é mais um dos amargos momentos por que passam uma família, que não dispondo de recurso imediato, passa a ser chantageado pelos papas defuntos, e ai o desespero redobra.
Ora, pela graça do Grande Carpinteiro do Universo, seus bons primos se reuniram e se quotizaram de modo a atenderem essas necessidades, tranqüilizando o Jânio e sua família de que tudo estaria na justa forma e na perfeita medida. Restava agora, a liberação do corpo o que somente veio a ocorrer no dia nove, antes de ontem para ser velado até as onze horas de ontem na Igreja de sua comunidade. Foi um momento tenso, emocionante e muito triste. Os traficantes comemoravam mais quatro assassinatos de menores nesse dia pela região de Almirante Tamandaré.
É chegada a hora do féretro e a funerária sempre muito atenciosa, prepara o translado no seu pequeno furgão, todavia, cobra do Jânio, os honorários aventados, sem o que, não deixaria o local. Nesse momento, os Bons Primos fizeram valer o seu socorro e o corpo pode ser levado para o cemitério e lá, mais uma surpresa: “o corpo não poderia ser sepultado, sem antes ser efetuado o pagamento de meio salário mínimo!” Novamente, um dos Bons Primos de pronto socorreu aos pais desesperados e assim, pode ser finalmente sepultado o Rafael para que descanse para sempre, na paz que não teve nesta vida mundana, vil, bandida, eivada de tristezas e pesadelos, onde impera a incompetência, a frieza e a insensibilidade de governo para governo, longe da expectativa de uma pálida solução ou erradicação dos assassinos do tráfico que não estão nem aí, para uma polícia que não se dá o respeito.
Agora, vem a parte em que se cobra por justiça, através da ação da polícia. Aquela polícia que não tem combustível, que não tem viaturas, que não tem efetivo suficiente, que ganha pouco e que nada pode fazer. Aquela polícia, que em seus quadros também tem cúmplices dos traficantes, achacadores, mal educados, recalcados e perigosos. Aquela polícia, que é a escória da sociedade, mal paga, mal treinada, despreparada e toda fodida e que denigre os bons policiais que ainda resistem em sobreviver à todas as mazelas que imperam na Segurança Pública e que, felizmente, é a maioria e somente com ela que se pode contar. Todavia, muito pouco poderá fazer.
Enquanto isso, vergonhosamente nossas crianças e adolescentes estão cada dia mais e mais se perdendo no crime, se viciando e se tornando vítimas da morte que vem do tráfico, que vem do abandono do Estado e de suas incompetentes autoridades.
Em 21 de março de 1993 – dezenove anos passados:
Gazeta do Povo: “Walmir Battu adverte que o crescimento do narcotráfico no Brasil está chegando em níveis preocupantes e prevê que se continuar nesse ritmo, em breve as imagens de atentados à bomba que ocorrem na Colômbia, na guerra entre os traficantes, fará parte do quotidiano de cidades como o Rio de Janeiro e São Paulo. Segundo ele, o número de viciados, traficantes, distribuidores de drogas e de pessoas envolvidas com o narcotráfico aumenta de 25% a 30% por cento todos os anos”.
Publicado também em meu livro “Desaparecimento, Drogas e Seqüestro – Como Prevenir e Enfrentar” – 2ª. Edição, Editora Ponto & Ponto.



